quinta-feira, 28 maio , 2026

O Brasil parou de acreditar. Mas os fatos não.

Existe uma dor que o torcedor brasileiro carrega que não aparece em radiografia.

Não é muscular. Não é ortopédica. É histórica.

É a dor de ter sido o maior um dia. E de não saber mais se ainda é.

E essa dor tem data. Tem placar. Tem nome de estádio.

Ela começou a acumular em 2006, cresceu em 2010, explodiu em 2014, e foi sendo lacrada em 2018 e 2022 como quem cimenta uma ferida que não fecha.

Vinte e quatro anos.

É quanto tempo faz desde a última vez que o Brasil levantou uma Copa do Mundo.

A conta que não fecha

Em 2002, o Brasil era imparável.

Ronaldo voltando de uma lesão que quase encerrou sua carreira. Ronaldinho dando chapéu em goleiro na melhor Seleção que essa geração já viu jogar. Um time que dançava e destruía ao mesmo tempo.

Foi pentacampeão.

E aí veio o silêncio.

Não o silêncio de quem descansa. O silêncio de quem desaparece.

2006 | França, quartas de final. 1×0. Um gol de Thierry Henry aos 57 minutos. Uma Seleção estrelada que tinha Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano no mesmo time e não criou nada. Literalmente nada. Parreira foi criticado por não encaixar as peças, por montar um time de nomes e esquecer que futebol precisa de entrosamento. A saída foi decepcionante demais pra um grupo tão talentoso.

2010 | Holanda, quartas de final. 2×1. Felipe Melo expulso depois de pisar no adversário. Um time que entrou achando que já tinha passado. Robinho e companhia começaram bem, venciam por 1×0, e aí a Holanda empatou e virou. O Brasil foi eliminado sem reagir, sem raiva, sem urgência. Dunga levou muita crítica pelo futebol travado, mas o que mais doeu foi a passividade.

2014 | Alemanha, semifinal. 1×7. No Mineirão. Em casa. Sem Neymar, sem Thiago Silva, sem resposta, sem chão. Sete gols em noventa minutos que viraram trauma nacional. A gente vai falar mais disso logo.

2018 | Bélgica, quartas de final. 2×1. Neymar rolando pelo gramado da Rússia mais vezes do que a bola. Um time que dependia demais de um só e não tinha plano B. O gol no início do segundo tempo que a gente nunca conseguiu buscar de verdade. Fim.

2022 | Croácia, quartas de final. Pênaltis. 2×4. Neymar fez um gol na prorrogação que parecia título. Parecia. Rodrygo bateu fora. Marquinhos bateu na trave. E a dança que todo mundo criticou antes da eliminação virou símbolo de tudo que deu errado.

Cinco Copas. Cinco eliminações. Todas para times europeus.

Nenhuma final desde 2002.

Tá. Agora diga pra mim que você confia no hexa.

O 7 a 1 não foi uma derrota. Foi um exorcismo mal feito.

Preciso falar sobre 2014. Não dá pra não falar.

Porque o 7 a 1 não foi só uma goleada. Foi a noite em que o Brasil perdeu a ilusão de que ainda era o maior sem precisar provar.

Durante anos a gente viveu de memória afetiva. De 1970. De 2002. De Pelé, Ronaldo, Ronaldinho. A ideia de que a camisa amarela intimida por si só.

A Alemanha não leu esse roteiro.

E quando o quinto gol entrou, o sexto, o sétimo, o que se viu no Mineirão não foi torcida chorando por futebol. Foi um povo olhando no espelho e não reconhecendo o reflexo.

A gente não perdeu um jogo naquela noite.

A gente perdeu a certeza.

E desde então, o torcedor brasileiro foi construindo um escudo que parece realismo mas é, na verdade, medo.

“Hexa não vem.” “Não tem time.” “Vai cair nas quartas.” “Sempre tem pênalti no caminho.”

A desconfiança virou identidade. Desacreditar primeiro passou a ser uma forma de não se machucar depois.

Eu entendo isso. Eu sinto isso.

Mas entender não significa concordar.

E se os fatos estiverem dizendo outra coisa?

Aqui a gente para de sentir e começa a olhar.

Porque tem uma diferença enorme entre o Brasil que caiu para a Croácia em 2022 e o Brasil que vai entrar em campo agora.

Uma diferença que o medo não deixa a gente enxergar.

Vinícius Júnior tem 25 anos e está entre os dez favoritos à Bola de Ouro 2026. Nesta temporada pelo Real Madrid: 17 gols, 13 assistências. Em jogos grandes, decisivos, quando o peso aumenta, ele aparece. O The Athletic disse algo que não consigo sair da cabeça:

“Poucas pessoas conseguem extrair o máximo de Vinicius como Carlo Ancelotti. E agora esse técnico vai ser o dele também na Copa.”

Raphinha foi o brasileiro mais bem cotado na Bola de Ouro de 2025. É o capitão do Barcelona. Não é figurante, é protagonista.

Matheus Cunha está entre os melhores da Premier League. Gabriel Magalhães comanda a zaga do Arsenal. Bruno Guimarães é o coração do meio campo do Newcastle. Alisson é um dos dois melhores goleiros do mundo.

Esse não é o Brasil que jogou em 2022.

Esse é um Brasil diferente. Mais maduro. Mais coletivo. Menos dependente de um nome só.

O fator que ninguém está calculando direito

Carlo Ancelotti.

Cinco vezes campeão da Champions League. O técnico que mais vezes ganhou o torneio mais disputado do mundo.

E mais do que o currículo: ele conhece esse elenco por dentro.

Ancelotti treinou Vinícius Jr. no Real Madrid. Sabe como ele funciona, onde ele explode, quando ele precisa de espaço e quando precisa de proteção. Isso não é detalhe. É vantagem.

Poucas vezes uma Seleção Brasileira chegou à Copa com um técnico que já tinha uma relação estabelecida, de trabalho diário, com os principais jogadores do elenco.

Isso muda dinâmica. Muda comunicação. Muda o vestiário.

Os dados históricos que o pessimismo ignora

O Brasil é o único país que participou de todas as Copas do Mundo. Todas.

É o maior campeão da história: cinco títulos.

Contra seleções europeias em Copas, o histórico total é de 45 vitórias, 15 empates e 16 derrotas em 76 jogos. A conta ainda está no azul. A gente só parou de ganhar quando mais precisava.

Nas decisões, o Brasil venceu os europeus cinco vezes. Perdeu uma: 1998, para a França, num jogo que até hoje tem mistérios que nunca foram esclarecidos de verdade.

No Mundial de Clubes de 2025, o Brasil mandou quatro times e todos passaram da fase de grupos. O Fluminense chegou às semifinais, eliminando a Inter de Milão no caminho.

O Brasil tem mais jogadores atuando no mundo do que qualquer outro país. Foram 142 no último Mundial de Clubes, quase a soma do segundo e do terceiro colocados juntos.

A matéria-prima não secou. A confiança é que foi embora.

Mas e os pênaltis?

Eu ouço esse argumento. Todo mundo ouve.

“O Brasil sempre cai nos pênaltis.”

Verdade que 2022 foi traumático. Verdade que pênalti tem aleatoriedade que nenhuma tática resolve completamente.

Mas também é verdade que em 1994 o Brasil foi campeão nos pênaltis, contra a Itália, numa final que definiu uma geração inteira.

O pênalti não é destino. É momento. E momento depende de estado mental.

Com um elenco mais maduro, um técnico de referência global e menos pressão existencial no peito, porque a Copa está fora do Brasil, porque não tem o peso de 2014 em casa, talvez o estado mental chegue diferente.

A pergunta que fica

O hexa vai vir em 2026?

Eu não sei.

Ninguém sabe. O futebol não funciona assim. Se soubesse, não seria futebol.

Mas o que eu sei é que esse Brasil tem mais argumentos do que qualquer Copa desde 2002.

Tem um dos melhores jogadores do planeta no auge. Tem um treinador que ganhou tudo que existe para ganhar. Tem um elenco com profundidade real, não só com nomes, mas com jogadores que treinam e jogam em alto nível toda semana, na Europa que a gente tanto respeita.

A ferida histórica é real. A desconfiança foi construída com episódios dolorosos e concretos.

Mas a fé não precisa de garantia. Precisa de argumento.

E pela primeira vez em vinte e quatro anos, os argumentos estão do lado de quem acredita.

Talvez seja hora de a gente parar de se proteger da alegria.

Porque se o hexa vier — e pode vir — e a gente tiver ficado do lado de fora da esperança, vai ser difícil explicar por que não aproveitou a viagem.

O Brasil está de volta.

Agora é torcer.

Por Karine Mendes — Coluna Aos 45 | Notisul

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